Ela era como a morte. Vestida toda de preto, um sobretudo até o chão com capuz
e coturno até a canela. Cabelos longos em cascata e negro como a noite. Sua
pele era branca como porcelana e fria como o próprio inverno. Ela andava nas
sombras que a lua fazia na madrugada com um pisar mais leve do que de um gato,
sem ruído algum.
Sua barriga roncou, ela estava com fome e nenhum homem por perto. Para pagar o
jantar? Não, para ser o jantar. Sua pele a cada segundo perdia a vida e
elasticidade rapidamente e começava a craquelar em um tom cinza. Não havia o
que fazer além de se alimentar. Ela se espreitou em um beco escuro entre dois
prédios, apoiada à parede suas pernas falharam e só restou escorregar até
sentar no chão imundo.
Não demorou muito até um homem passar pela sua frente no beco escuro, ele
trajando um sobretudo longo devido o frio que fazia, das suas narinas saía ar
quente que condensava ao se chocar com o ar gelado. Aproximou-se lentamente
rastejando através das sombras para que ele não a percebesse, e mandou
comandos psíquicos para a mente dele para que parasse de caminhar e fosse de
encontro à ela. Mas algo deu errado. Ela faminta e cada vez mais fraca, seus
poderes estavam enfraquecidos também e ela não conseguia controlar nem dez por
cento da mente dele, o que seria o suficiente para o domar.
O homem ― que não foi arrematado por seus comandos ― parou de caminhar
instantaneamente, como se tivesse uma parede à sua frente e no mesmo momento
alguém surgiu do escuro atrás dela, era seu irmão com as mãos nos bolsos.
― O que você está fazendo aqui, Anton? ― a jovem vampira o questionou,
sentindo sua garganta se fechar com o esforço que fez para falar.
― Para te ajudar maninha ― sorriu irônico.
Obedecendo os comandos do rapaz, o jantar foi até o encontro da moça faminta e
ofereceu seu pulso, que ela o tomou entre as presas e sugou ferozmente. Ele
não sentiu dor, ao invés disso sentiu uma onda de endorfina passar pelo seu
corpo e relaxou sentado no chão.
Sentindo revigorar-se e cheia de dúvida sobre as intenções do irmão, a moça
pingou seu sangue na ferida da mordida que cicatrizou em minutos e apagou
aquele momento da sua memória. Acompanhou o caminhar de seu irmão pela Strada
Vasile Alecsandri, úmida por causa da garoa que passou por ali pouco tempo
antes. Para um humano qualquer estaria silencioso, mas para a audição aguçada
dos vampiros a floresta que ladeava a estrada era muito barulhenta e era
preciso eliminar os ruídos externos de animais e insetos na floresta para se
ter uma boa conversa ali.
― O que pensava que estava fazendo? Temos comida que chega em casa ―
questionou a moça com ar preocupado, mas não por ela.
― Eu precisava de sangue fresco ― deu de ombros.
― E arriscar nosso ninho por causa de um lanchinho? Nossa comida é ótima,
talvez se não fosse tão mimada desse mais valor para o que temos! ― ele elevou
a voz irritado com ela e sua atitude.
Permaneceram em silêncio durante todo o caminho até a velha mansão onde o clã
vivia, ela sabia que estava errada, mas ela tinha suas convicções e não
entregaria a ele assim tão fácil, naquela escuridão ele não conseguia ver o
rasgo que foi aberto em sua barriga que fora feito por outra das criaturas das
sombras em uma luta por respostas.
Ela pensava que sua família estava decaindo em ruínas enquanto outros clãs
estavam surgindo do pó e elevando seu poder e fortuna muito rapidamente, mas
ela descobriu um plano muito bem arquitetado pelo seus pais — não os de
verdade, mas os que a acolheram em seu leito de morte por uma doença terrível,
no fim do século XV. O plano consistia em casá-la com um membro de outro clã,
para então fundir suas forças. Inclusive eles estavam voltando para a mansão
Vermelha para o primeiro encontro, que claramente ela não sabia disso.
Aliás, casamento tinha outra definição para os vampiros, até porque eles
praticavam a poligamia e promiscuidade abertamente e eles não podiam gerar
vidas, apenas criar novas criaturas a partir de humanos, mas as alianças que
esse status trazia era muito maior do que qualquer outra coisa. Proteção, luxo
e muito poder.
Cateline sabia que isso podia acontecer com ela algum dia, mas aguardava sem
ansiedade, e para sua surpresa até que demorou a chegar. Seus pais sempre
deixaram claro que isso poderia acontecer, mas que não fariam nada em vão e
ela teria tudo o que sempre quisesse se assim o fizesse.
Para acabar com aquele clima pesado entre os dois, eles correram com a super
velocidade diminuindo o tempo de trajeto do centro até a pequena vila no vale
onde moravam. A mansão dos Dragomir no pé da montanha estava cheia de energia,
uma festa com música alta e muita bebida eram dados em recepção ao cavalheiro
que aguardava sua filha ansiosamente em uma ante sala para uma conversa
particular.
Depois de surtar com seu irmão ao descobrir o que a esperava na sala mais
distante da mansão, decidiu tomar um banho quente e vestir roupas limpas, fez
uma maquiagem caprichada e nos lábios um batom escuro; caminhou sensualmente
em cima de uma sandália de salto alto e fino enquanto cumprimentava um ou
outro familiar no caminho até a sala que o rapaz a aguardava. Cateline deu
duas batidas na porta e entrou, mas congelou ali mesmo no momento em que os
olhos azuis profundos de Dimitri penetraram os seus.
Dimitri havia se apaixonado e casado com outras mulheres, mas ele acabou
enviuvando todas as vezes, e embora tivesse mil anos, ele estava muito ansioso
no momento. Todos sabiam que o rapaz era um romântico nato e que não conseguiu
não se apaixonar por todas as mulheres que passaram pela sua vida e mesmo
tendo um coração de pedra depois de tantas perdas, ele não soube como
controlá-lo quando viu Cateline pela primeira vez parada na porta. Dimitri era
a perfeição inumana e ela não percebeu que o encarava descaradamente até ele a
convidar a entrar.
Eles não se conheciam pessoalmente antes desse encontro, até pelo motivo de
vampiros não terem a mesma facilidade que os humanos tinham de stalkear alguém
pelas redes sociais na internet, por exemplo.
― Vossa alteza ― disse se curvando para frente assim que percebeu de quem se
tratava. Realmente não tinha como ignorar a coroa em sua cabeça rodeada de
rubi lapidada em gota, símbolo da monarquia vampiresca Petrova.
A monarquia era outra coisa que funcionava diferente para os vampiros. Como
criaturas malignas das trevas era de se observar que jamais conviveriam em uma
sociedade moderna e organizada. Nesse mundo os mais velhos eram sempre
respeitados, até por serem mais fortes e seus poderes mais precisos, e ninguém
seria maluco de correr de braços abertos para a morte em uma batalha mano a
mano. Sendo assim, depois dos primeiros que deram a verdadeira vida eterna a
uma longa linhagem de vampiros que existem até hoje, títulos foram dados para
assim saber quão velho este seria e quanto poder detinha. Dimitri era um jovem
príncipe, porque seu antecessor decidiu que estava velho demais para comandar
um clã inteiro sozinho, o clã Petrova, e queria curtir o resto da sua vida
imortal sossegado se retirando do comando para férias eternas. Acima dele
haviam cinco imperadores, vinte reis, e mais de cinquenta príncipes.
― Por favor, em pouco tempo estaremos noivos, não quero que faça isso, pelo
menos não quando estivermos a sós.
A moça assentiu ajeitando seu cabelo atrás da orelha, caminhou sem tirar os
olhos do rapaz estudando cada movimento dele até se sentar em uma postura
atenta cruzando uma perna sob a outra, as pernas que estavam cobertas pelo
vestido longo preto e agora estavam aparentes pelo corte na lateral até a
coxa.
― Quer beber algo? ― Perguntou desconcertado, com tamanha luxúria que sentiu;
ergueu seu copo largo quase vazio e ela aceitou com um sorriso presunçoso. A
bebida alcoólica não deixava os vampiros bêbados, mas o sabor era bom. Dimitri
completou seu copo e serviu outro entregando a ela, e sentou na poltrona em
frente a moça abrindo os botões do terno.
― Acredito que meus pais já tenham lhe passado as minhas condições ― bebericou
no seu copo apoiando-o na mesa ao lado da poltrona.
― Sim, claro, aceito seus termos, se aceitar os meus. ― Disse lançando um
olhar direto.
Ele bem tinha suas próprias intenções com esse matrimônio, mas sentia isso
mudar aos poucos conforme passava esse tempo observando-a. O vestido era todo
de renda transparente, por baixo usava um body preto, e isso o intrigava, por
qual motivo tapar a barriga se todo o resto estava a amostra?
― E o que seria? ― Perguntou ela.
― Não se meter nos meus negócios. ― Ela arqueou uma sobrancelha ― Você pode
fazer o que quiser e na hora que quiser, mas ao meu lado no trono, você será a
futura rainha, totalmente submissa.
― Não tenho problemas, sou uma ótima atriz.
― Ótimo. ― entornou o copo de uma vez. ― E mais uma coisa.
― Hum? ― ela indagou curiosa.
― Seja discreta.
― No que? ― ficou confusa.
― Com seus brinquedos. Eu farei o mesmo. Não traga-os para o castelo, ou serão
todos mortos.
― Ah, você é do tipo ciumento, entendi. ― Entornou o seu.
― Não sou. Já disse, faça o que quiser na sua hora livre e com quem quiser. ―
essa afirmação soou rude e sua feição confirmava seu tom de voz, mas ela
entendeu o recado. Ela teria sua liberdade se fosse a futura rainha ao seu
lado, e para ela estaria tudo bem.
― Quando podemos ir?
― Se preferir, assim que oficializarmos. ― respondeu ficando de pé.
Cateline assentiu pensativa, precisava resolver todas as suas pendências antes
de se mudar para o castelo e assumir o posto de princesa consorte.
― Tenho negócios a resolver aqui antes de voltar ao castelo, eu avisarei. ―
Estendeu a mão para que ela se apoiasse ao levantar. ― Temos um acordo? ―
sorriu presunçoso.
― Temos.
Foi nesse momento que o toque gelado das mãos de ambos fez uma corrente
elétrica passar por seus corpos que a fez levantar em um pulo ficando cara a
cara com seu futuro noivo, que por sua vez não esperava essa reação e a
segurou pela cintura. Estando assim tão próximos notaram algo diferente de
qualquer coisa humana que sentiram anteriormente em suas vidas. Aquilo que
anteviam a uma caçada pela floresta: o suor brotando na testa, o paladar
aguçado e os sentidos aflorados faziam seus olhos se focarem melhor. Pensando
terem sentido a mesma coisa se desvencilharam indo cada um para um lado e
aquilo que era para ser um primeiro encontro apenas fez eles repensarem em no
que estavam se metendo.
Eles não poderiam ignorar o que estava se passando ali, mas resolveram tentar
a sorte de se afastarem e retomar a compostura.
Ambos estavam ali com o mesmo propósito, unir suas famílias, aumentar seu
poder ao ponto de dominar o mundo e subjugar os humanos. Mas não estavam
certos se conseguiriam fazer longe um do outro.
Abruptamente a porta foi aberta e os pais Dragomir entraram, o reverenciaram
com um uníssono "Vossa Alteza", por sorte deles não repararam no que aconteceu
segundos antes.
― Desculpem-nos em não poder nos juntar antes a esse bate papo interessante, o
que resolveram? ― Perguntou o Conde Dragomir.
― Estamos de acordo, Conde. Podemos marcar o casamento.
― Ótimo, vou começar os preparativos ― disse sua mãe e Condessa Dragomir
esboçando sinceridade, ela era elegante até no modo de falar e agir, parecia
uma anjo da morte.
― Claro, que maravilha, vamos tomar as providências, mas por hora gostaria de
nos acompanhar em um jantar? Não podemos deixá-lo ir sem uma refeição
apropriada. ― O príncipe assentiu, certamente o Conde Dragomir sabia convencer
as pessoas e sua hospitalidade era sempre muito bem falada por todos que
frequentavam sua residência.
― Como prefere sua refeição, Vossa Alteza?
Uma refeição nunca era normal se tratando de vampiros, pois cada um tinha um
jeito de se alimentar distinto. Em tempos modernos surgiram várias formas de
alimentos diferentes, além de humanos e animais sugados diretamente da fonte,
haviam os que forneciam seu sangue por drenagem em troca de dinheiro e outros
luxos e os que forneciam alimento fresco em troca de um momento de prazer em
consequência da mordida. Havia também os sintéticos vendidos como suco
engarrafados e os turbinados vendidos como balas de goma que prolongavam o
efeito de saciedade e seus benefícios.
Mas o príncipe se alimentava como os Primeiros, e por isso aceitou o convite
de Cateline a se juntar a ela em uma caçada noturna na floresta que rodeava a
residência. A floresta era composta por árvores nativas e muito velhas, sendo
altas e com folhagens mais densas, fácil das presas se esconderem, mas todos
sabiam que ótimos caçadores eram os vampiros.
― Vai ser legal ― Cateline disse estendendo a mão que o príncipe segurou
firme.
Cerca de vinte humanos compelidos a fugir foram soltos na mata e os convidados
que queriam participar se juntaram na área externa nos fundos da mansão. Os
anfitriões Dragomir estavam indispostos, e por isso apreciaram a brincadeira
dali mesmo com suas taças de sangue fresco enquanto os mais jovens corriam
atrás de suas presas.
De mãos dadas Dimitri e Cateline farejaram o medo compelido nas presas, e
depois de um olhar que dizia muito ambos correram lado a lado pela floresta
por alguns metros até Dimitri soltar sua mão para emboscar uma presa. Era um
rapaz de uns vinte anos humanos, corpo atleta, o sangue que escorria de uns
arranhões conquistados na fuga denunciou seu paradeiro.
Um de cada lado e o rapaz não tinha para onde tentar escapar.
― Primeiro as damas ― Dimitri ofereceu a jugular direita e na primeira mordida
a verdadeira fera apareceu em Catelina.
Sua íris que antes era cor de mel agora se transformara em um rubro brilhante
e veias negras surgiram em seu rosto a partir dos olhos e contrastou com sua
pele branca. O sabor para a moça era revigorante e sugava com vontade, o
lanchinho mais cedo não bastou para saciar-se. Dimitri percebeu que sua feição
inicial era de desespero e rapidamente se transformou como alguém comia a
refeição predileta, ela até soltava gemidos. Ele deleitava-se enquanto a
observava se alimentar.
A refeição também, ele estava compelido então não tentou fugir quando foi
encurralado, na primeira mordida grunhiu de dor, mas no decorrer sua expressão
se alterou por causa das toxinas que passavam uma falsa sensação de prazer até
estar totalmente entregue e sem controle do seu corpo.
Nesse momento Dimitri tomou o pulso da refeição antes que Cateline o sugasse
até a última gota, o sangue era realmente tão bom que poderia deixá-lo viver
para continuar bebendo em outras ocasiões, mas era apenas um lanche rápido,
não mais que dois minutos até o rapaz ter seu sangue totalmente drenado.
Além do alimento, o sangue deixava um certo sentimento de euforia nos
predadores, e ali sob as estrelas em uma noite sem lua depois de tal
acontecimento, Dimitri mirava Cateline sob um olhar atento com pensamentos
promíscuos. Cateline por sua vez, percebeu e não se importou com o sangue
escorrendo do canto dos seus lábios e correu até seus braços o agarrando pelo
pescoço beijando-o ferozmente.
Que todo vampiro tem seus sentimentos e emoções elevados, todos sabiam, mas
depois de uma refeição era o momento que eles ficavam mais sensíveis e
aflorados.
Enquanto Dimitri enfiava sua língua para dentro da boca de Cateline em um
ritmo cada vez mais acelerado, a moça o puxava mais para si como se fosse
entrar em seu corpo.
― Eu não vou ser gentil ― disse ele sussurrando cheio de tesão apertando seu
membro rígido sob a calça onde ele deveria penetrá-la.
― Tudo bem, não sou mais virgem ― alfinetou.
Virando-se para pressionar as costas da moça na árvore que minutos antes
sugaram um pobre coitado até a morte, segurou uma das pernas que fugia pela
fenda do vestido até sua cintura para poder ter livre acesso e penetrá-la com
violência após por seu membro para fora da calça.
Era claro que eles não estavam ali sozinhos e logo sentiram uma brisa passar
ao redor deles e o corpo que estava ali desapareceu sendo levado por um outro
membro que daria descanso ao rapaz morto. Mas isso não deixou os vampiros
acanhados, muito pelo contrário, só os deixam com mais apetite. Herança da
parte humana primitiva, algumas coisas nunca morriam.
Ofegantes, terminaram emaranhados de suor, ajeitaram suas roupas para voltar à
mansão.
― Tenho que ir agora, minha princesa ― disse ele todo galante, nem parecia o
mesmo feroz da floresta.
― Quando nos veremos novamente? ― Cateline sentia a ansiedade pulsar, ela
queria lutar contra o que estava sentindo pelo príncipe, mas não se conteve.
― Em breve, ― se dispôs a dizer.
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Um grande abraço e obrigada pela leitura!
Com carinho,
Escritora Aline Duarte
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